Meia dúzia de palavras pra explicar o inexplicável

Um blog não confessional.

Parece coisa de aula de algum curso de geologia, mas não é. Parece coisa de cientista, mas não é. Parece mentira de pescador, mas não é. Com o que você acha que isto se parece? Talvez seja isso...

sábado, 26 de maio de 2012

Nota {24}

Mas e então, o que é a espera afinal, além dessa bendita maldição?
Além desse caldo espesso e morno que tanto sorvo quanto permito-me deixar absorver, bebendo-me em pequenos goles...
Além desse frio nos pés e o sono que não pode chegar...
Além desse mar que, em vão, tento esconder...
Além desses olhos mirando sempre quaisquer outras direções...
Além dessa maldita benção...?

Espero.

domingo, 20 de maio de 2012

Dádiva


Isto é abundante – INUNDAÇÃO! – e transborda lambuzando-me completamente, envolvendo-me, espalhando-se por cada mínimo pedaço que me compõe. É preciso que se doe, é preciso me doar antes que doa ainda mais tamanho o inchaço no peito preste a explodir e lançar longe em espaço vazio estilhaços, estilhaços, estilhaços...
Eclosão!
Ah, não quero apenas respingar em rostos frios, distantes e imóveis para em seguida evaporar para sempre!
Permita então que eu me derrame sobre você e me espalhe ao seu redor! Aceite que toda a minha abundância seja compartilhada contigo, gota a gota – ACEITE! – umedecendo áreas secas em seu coração e alma. Abra seus braços e suas mãos para receber a oferta que lhe entrego. Isso é tudo o que me basta! Permita-me praticar o amor! Permita-me praticar o afeto. Permita-se receber. Permita-me que, amando-te eu possa aprender finalmente a amar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Guisa



Esta música tem sido muito para mim. Como ombros onde me permito descansar mansamente e chorar lágrimas quentes, às vezes doces, às vezes salgadas, mas sempre necessárias.
Necessárias para que eu me sinta viva!
Ah... ninguém nunca escondeu que viver dói.

Sempre que ele volta tem esse poder estranho que eu nem sei se devo mesmo chamar de poder. É algo, ainda que eu não consiga precisar se é real ou imaginário, mas é de fato algo. Abala minhas estruturas, mina confianças porosas, chega como águas que conseguem ocupar cada fresta da minha alma. Pulsante e fugaz.
Vazio.
Vazio.
Vazio.

Por que? 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Nota {23}

São doces as lágrimas minhas. Doces.
Escrevo porque há latência. Se não latejasse eu dormiria em paz.

domingo, 6 de maio de 2012

Garo(t)a

Estou pensativa. Completamente perdida e entregue ao mundo etéreo e impreciso que mantenho em mim apesar de todo o concreto que me cerca. São sempre muitas as perguntas recorrentes... perguntas que eu sequer consigo formular com palavras. Talvez porque ainda há palavras por inventar ou sensações simplesmente inomináveis. 
Volto a Sara Tavares e sua bela voz é como uma fagulha, um impulso que me retira o chão frio e duro de sob os pés. Sinto como se os nós das cordas em meus pés se desamarrassem e eu passasse a flutuar, a me dissolver completamente, a me misturar com o ar e as nuvens. Suas músicas tem feito de mim chuva, ora mansa e incessante, ora tempestade repentina e violenta transformando em barro todas as certezas sobre as quais eu me apoiava. 
Eu hoje sou chuva que não se nomeia.
Tem tanta coisa revolta por aqui... deliciosas lembranças, relâmpagos de felicidade, explosões de prazer e gotas de angústia, uma angústia persistente e latejante. Desejo molhar rostos e escorrer por faces conhecidas, desejo ter o poder de refrescar inquietações, mas como poderia fazer isso se minhas próprias inquietações insistem em arder em meio a tanta água?
Perguntas (re)correntes: por que por vezes sinto ser tão difícil viver o presente, o agora pura e simplesmente? Por que às vezes eu não consigo estar aqui? E por que vou para tão longe se sei que vou me machucar nesses passeios inconscientes? Por que a fantasia invade e me faz refém de uma forma tão pacífica que sequer ouso me rebelar?
Por que eu não consigo estar aqui? Por que tenho que ir a lugares que já conheci e que não me acolheram como eu bem anseei? E por que acredito que seria bem acolhida ao voltar ali?
A alma se cansou e deseja apenas afago e conforto, mas ainda cansada insiste em permanecer agarrada a nacos do passado. Céus! Como se apegar ao que deixou de existir? Por que fazer isso?
Eu me jogo das alturas e sinto em cada gota de mim o medo de me espatifar no chão, ainda que essa vontade seja tão grande quanto esse medo. Parte de mim é absorvida pela terra, parte de mim evapora imediatamente para se jogar novamente. Morte-nascimento-morte-nascimento-morte-nascimento-morte-nascimento centenas de vezes por minuto. 
E tudo para que uma gota ficasse represada numa superfície bem menos porosa do que o chão... Não aconteceu. Nunca aconteceu, mas eu, enquanto tempestade do passado (que do presente invoca apenas a permanência) ainda persisto. Dolorosa crença em poder matar a sede.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ponto de Luz


Escutando no vento
Tua voz secreta
Que me sopra por dentro
Deixa-me ser só seu
No teu colo eu me entrego,
Para que me nutras
E me envolvas
Deixa-me ser só seu

Um ponto de luz
Que me seduz
Aceso na alma
Um ponto de luz que me conduz
Aceso na alma

Por trás dessa nuvem
Ardendo no céu
O fogo do sol raia
Eternamente quente
Liberta-me a mente
Liberta-me a mente

Um ponto de luz que me seduz aceso na alma
Um ponto de luz que me seduz aceso na alma

(Sara Tavares)

Repouso

O toque mudo e sutil é teu, tanto quanto é sagrado. O silêncio é morno e úmido, envolvente e calmo, oração silenciosa que repousa sobre meu ventre. Desenho teu rosto com meus lábios, procuro cada forma e cada pedaço de expressão passeando lentamente. Desejo que manhãs de sábado durem horas e horas, quero dias inteiros todos feitos de manhãs cheias de manhas. 

Bom ficar ali entregue e aberta sentindo seu corpo respirar através dos teus olhos. Bom sentir o sol cobrindo nossos corpos, dotando de magia dourada o despertar. Vai ver comunhão é isso: apenas os meus suspiros sob o sol.

Eu não quero que seja mentira, não quero armas nem armadilhas. Não quero o desespero, o erro, a dor. Não quero a lágrima não consentida que inibe a entrega. Não quero o fosso de trevas a tomar proporções assustadoras, o medo do (des)conhecido. O que eu quero não sei verbalizar, mas o que não quero é quase cristalino no fundo dos meus olhos. Não quero a destruição. Não quero a solidão ainda que disfarçada.


Tão belo e tão bom o divino materializado em corpos unidos que se acomodam e juntos repousam, se permitem e conversam em línguas e saberes ancestrais!

Talvez eu possa, para além de outras coisas, aprender a acreditar com você por meio das perguntas que apenas meu corpo pode lhe fazer.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Terra dos não lembrados


Me ajude
a queimar o verbo
esquecer desse verso
E sumir
Da terra dos com raiva
Da terra dos com pressa
Da terra que enterra
Luz dos olhos entra em guerra

Me empurre goela a abaixo
a necessidade de ter a eternidade
pra não viver
E pra não ser
o humano que sou
Acho que que vou
Me permitir Seguir
com as asas que não me deram
mas que conquistei
com o sorriso que levei
dentro do peito
minha alma não tem jeito

O que interessa é sentir
E o que estiver por vir
será totalmente desconhecido
caminho que adormece escondido
Nas manhãs de um sol que
ainda não existe
E na lembrança persiste
em algum lugar lá fora

E só o que peço agora
(não haverá outra hora)

Me ajude
a incrementar meus versos
esquecer desse verbo
E partir

Pra terra dos sem raiva
pra terra dos sem pressa
pra terra que é terra e
não concreto como essa...








segunda-feira, 19 de março de 2012

Parabéns!!!

Meu aniversário!!! Eba!!!


Olhem, de verdade verdadeira foi às 9:55h (minha mamy me contou hoje o quanto foi sofrido o meu nascimento e todo o descaso do qual ela foi vítima no hospital público onde foi atendida em Santo André. Eu fiquei pensando sobre um monte de coisas, como histórias assim infelizmente não são raras... infelizmente...) e eu não tenho absolutamente mais nada além disso pra dizer, mas queria porque queria uma postagem na data do meu niver... :P

Então tá aqui, ó! Afinal, mais vale um luxo do que um monte de coisas... (esqueci o fim desse ditado)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

29 de Fevereiro

Então está tudo certo: seus olhos passeiam por aqui e eu me sinto contemplada. Desejo que passeiem e esse desejo é o que me basta para que tudo se torne verdade. E é verdade! Como a magia que se esconde um pouco a cada ano, como um dia a mais que se ganha de presente sem que se saiba ao certo o que fazer com tal dádiva. Eu não quero gastar esse dia. Quero saborea-lo como se degusta aquele prato favorito. Quero compartilhá-lo como cerveja com amigos. Quero tanta coisa pra se por em um dia apenas...! Tanta coisa!

Quero teus olhos por aqui sorrindo ainda que timidamente ou mesmo com uma expressão dura. A agilidade do teu pensamento e a fluência dos teus sonhos. Quero um abraço que dure por um dia com sabor de quatro anos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Nota {22} (ou "Pra não dizer que não falei das flores")

Não é fome o que eu sinto: é ternura. Ternura de observar, de permitir que eu me perca em um toque, tão sutil, que mal chega a roçar meus cabelos. Mas não é fome: vontade de conforto, anseio por cafuné. 
Palavra bonita de fazer cócegas no juízo. Torrente de palavras, chuva gramático-torrencial que alaga essa cidade que eu sou sob o sol de meio dia. Abandono ao sabor do acaso e eu viajando... viajando... viajando... São terras estranhas e tão familiares! Lugares onde fui e de onde trouxe muitas caixinhas aveludadas, recheadas de sensações (in)descritíveis. 

E eu ali olhando sem saber se posso ser a qualquer momento pega em flagrante.

Não é fome, repito. Repito exaustivamente: não é fome. 

Ou talvez seja... mais uma vez fome de tudo.

De quase tudo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Feira Livre



Tenho uma série de "pequenos rituais" do cotidiano que podem parecer bobagem pra um monte de gente mas que me garantem momentos de bem estar e alegria gratuita (mesmo que eu tenha que pagar algumas coisas de vez em quando, faço de conta que a alegria vem de brinde...): tomar banho (o que significa, quando estou em casa, uma razoável sessão de relaxamento, brincadeiras e experimentações com aromas, texturas, espumas, espumas, espumas... Isso sem falar que depois do banho vem a "sessão de hidratação" e massagem da pele, dos cabelos e é um tal de usar um creme para cada coisa que até me dá preguiça de escrever...), acordar (por essas e outras que eu acabo tendo sempre que acordar muito tempo antes do necessário, só pra poder cumprir meus "rituais" bem devagarinho...), assistir a um filme em casa e, entre outras coisas, cozinhar nos domingos a comida que consumirei ao longo de toda a semana. Coisa de quem tem uma rotina um tanto quanto corrida, mas que nem por isso se apoia no argumento pra viver de lanchinho, bolacha e "petiscaria" em geral. Coisa de quem também vai descobrindo quão grande é a parcela de pai e mãe que carrega dentro de si e que só de vez em quando se permite ao raciocínio "já que ninguém está olhando, não preciso fazer direito" quando o assunto é alimentar-se. Coisa de gente doida, vá! 
A verdade é que eu geralmente gosto de ficar na beira do fogão aos domingos, inventando temperos, experimentando combinações ou mesmo simplesmente fazendo o básico do básico. Parte fundamental desse ritual todo é a ida a feira logo pela manhã do domingo.
Adoro ir a feira!!! É engraçado como muitas vezes me sinto inquieta e até aborrecida em lugares tomados por multidões, gosto muito mais de ficar no meu cantinho, pouca gente, só o essencial, mas na feira isso muda. Gosto dos cheiros misturados das frutas e temperos e  de ficar tentando distinguir um e outro, puxando através dos cheiros os sabores todos gravados na memória. Gosto dos sons, dos bordões e frases usados pelos feirantes, pelos pechinchadores e passantes. Gosto das cores que explodem nos meus olhos e que se tornam a mais eficiente das propagandas. Gosto do movimento, de desfilar rua a cima, rua a baixo, de andar pra lá e pra cá procurando muitas vezes não pela melhor oferta, mas também por aquele algo a mais que supermercado nenhum é capaz de fornecer: o riso, a conversa, a inevitável pechincha, o gracejo que independente de ser sincero ou não faz toda "moça bonita que não paga, mas que também não leva" acabar se deixar levando e por fim levar até aquela bacia de mangas cheirosas, "do tamanho do olho do meu vizinho", mas que não constavam da lista original. Gosto de voltar para casa da mesma maneira como fui: a pé, passando pelas padarias, restaurantes e lanchonetes com suas inúmeras máquinas de assar frango que inundam o ar de domingo com aquele perfume de dar água na boca (sou só eu ou você também acha que, apesar de frango assado ser uma delícia, o cheiro é muuuuuuuuuuuuuito mais gostoso do que o sabor? Tá aí um negócio que eu não consigo entender...).
Chegando em casa carregada de pacotes coloridos e de conteúdos saborosos vem o carinho e a dedicação - e por que não dizer até mesmo a diversão! - de preparar o sagrado alimento que me nutrirá ao longo da semana. Vai ver gosto tanto dessas coisas todas porque enquanto eu as faço vou tentando dar conta e dar ordem ao mundinho que se esconde dentro de mim, colocando como tempero em cada comidinha preparada  o desejo de que essa semana seja sempre melhor do que a anterior e de que a próxima seja melhor do que esta, e de que...
Bem, e assim por diante! ;)   

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

"A voz continua a mesma, mas os cabelos..."

"...QUANTA DIFERENÇA!!!"

Nada de mais... Eu realmente adorava aquelas flores lá do fundo antigo, mas, verdade seja dita: era bem pior pra ler, né? Bem, se a letra é clara, é claro também que o fundo precisa ser escuro, beeeeeem escuro pra não ficar tão ruim de ler...

Mas fora mudança de "fundo", tamos aí, na mesma, certo?

Então tá certo! ;)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sobre sonhos e (des)sonhos

Aqui está a primeira das duas coisas que eu precisava dizer: por duas noites consecutivas tenho tido sonhos que me deixaram um pouco perturbada pela temática recorrente. Não sei interpretar sonhos, não tenho ideia do que significam, mas por terem me impressionado muito desejei compartilhá-los, até mesmo porque não é sempre que me lembro do que sonho. Eu bem que gostaria de ao acordar me lembrar exatamente do que sonhei, mas isso é muito raro! Muito me admiro de me lembrar de 3 sonhos nessas últimas semanas, mas vou deixar de fora dessa postagem o primeiro deles pois não se relaciona com os demais e ao contrário destes, me deixou muito alegre porque nele estava uma amiga muito querida. Fiquemos por hora com os "perturbadores".


Em ambos os sonhos eu sou mãe, mas a maternidade ocorre sempre de forma traumática. No primeiro deles eu me via num estranho hospital (muito mais parecido com aqueles cenários daquele desenho "Beetlejuice" que passava há alguns anos na TV Record. Eu adorava esse desenho!!! Tá... pode falar que eu era uma criança esquisitinha, eu deixo... ), perambulando pelos corredores prestes a dar a luz sem que ninguém viesse me atender, sem que ninguém prestasse atenção a minha presença. Eu estava completamente nua e não sentia nenhuma dor, apenas sentia que meu bebê se impacientava para vir a um mundo que não estava sequer disposto a recebê-lo. Num determinado momento uma enfermeira aparece e me conduz até um quarto, mas me deixa sozinha para fazer o parto. A criança nasce sem nenhuma ajuda e eu, sem nenhum cansaço ou incomodo, vejo também indiferente quando a enfermeira volta, leva meu bebê embora antes que eu possa ao menos descobrir se era menino ou menina. Eu não aparento nenhuma preocupação com isso. Levanto-me e volto a caminhar pelos corredores do hospital, nua e ensaguentada, a procura de um médico. Então encontro numa salinha um homenzinho estranho, aparentando muita afetação e sentindo nojo de tudo o que o cerca: os pacientes, o hospital, eu. Ele está atendendo alguém, não me lembro se homem ou mulher, mas me recordo da indiferença dele. Depois que a pessoa que estava no consultório sai eu entro, sento-me na maca e começo a olhar pra ele provocativamente, quase dando risada. "E você, o que é que tem?" - ele me pergunta. Eu respondo secamente: "Ué, tive um filho, doutor! Não está vendo?". Mostro minhas pernas ensaguentadas. Ele faz uma cara de nojo assustadora, exclama "meudeusdocéu!" e com um pedaço úmido de gaze começa a me limpar. Então o despertador toca...

No sonho da noite passada eu era professora (!) e estava participando de uma excursão da escola. Meus alunos eram adolescentes. Não me lembro onde estavam nem o que faziam. Lembro-me de ter ficado no ônibus com uma porção de professores e professoras, inclusive com um tal professor com quem eu tinha tido um caso efêmero, sem que ninguém na escola soubesse de nada. Apesar da efemeridade do caso eu estava grávida, mas não queria que ele soubesse de nada, nem que tivesse nenhum contato com a criança. Mesmo assim não sei como ele descobriu que eu esperava um filho dele e veio conversar comigo dentro do ônibus. Não me lembro das palavras que ouvi, nem das que disse. Lembro que foi uma discussão horrível e que eu disse muitas coisas que machucaram terrivelmente aquele homem a ponto de vê-lo em lágrimas na frente de todos os outros docentes ali entocados. Devo ter terminado a briga dizendo algo como "você nunca verá nem terá direito algum sobre o MEU filho!" antes que o despertador tocasse e me jogasse de volta ao mundo concreto.

Não tem fim e não me arrisco a interpretar nada do que foi dito. Ter dito já me basta.

"...Eu não sou um bom lugar..."

Eu quero falar sobre duas coisas que não possuem nenhuma outra relação entre si a não ser eu. Já que é assim, permito-me começar pela segunda.

De tempos em tempos faço coisas das quais me arrependo depois, mas às vezes fico me perguntando se eu não deveria me arrepender mais vezes de certas coisas feitas, já que só vou perceber a gravidade das mesmas quando alguém me chama a atenção para isso. Confuso? Nem tanto... dá pra resumir dizendo que eu ainda tenho muuuuuuuuuita coisa pra aprender sobre essa coisa toda de estar no mundo, de ser gente. Desta vez, quem me deu um toque para que eu me atentasse às minhas atitudes foi meu irmão. Faz algumas horas que o episódio ocorreu, mas eu continuo pensando a respeito, assim como me pus a pensar ao longo dessas horas em uma porção de outras coisas.

A cada dia que passa acabo fazendo dolorosas descobertas sobre mim. Dolorosas, mas necessárias, afinal é mesmo como dizem por aí: o primeiro passo pra se corrigir um erro é descobrir o que está errado. Sem rodeios, é necessário que se diga: não sou uma pessoa fácil. Não entendo como as pessoas que me amam conseguem fazê-lo... Creio que deve ser porque são de fato extremamente especiais. Mas que eu não sou fácil, não sou... posso parecer assim a algum desavisado, mas definitivamente não sou.
Eu sou birrenta, gosto das coisas do meu jeito. Sou preguiçosa e tendo a fazer apenas o que quero. Sou orgulhosa também, um pouco rancorosa até. Por vezes indelicada, autoritária, arrogante. Tenho um monte de frescuras, um monte de desgostos, um monte de manias. Me vejo oscilando entre subserviência e altivez de uma maneira desconcertante. Sou muito boba e imatura para lidar com determinados aspectos. Sinto-me incomodada pela ideia de estar o tempo todo representando algum papel, como se eu não me sentisse autêntica. E se estou dizendo essas coisas não é por exercício de autopiedade ou desejo de que alguém venha passar a mão sobre a minha cabeça e dizer "não, você não é assim!". É pra botar pra fora, pra olhar essas coisas fora de mim, reconhecê-las fora de mim para que eu possa estranhá-las. Sabe quando você tem plena consciência de que precisa mudar certas coisas, mas não faz ideia de por onde começar? Então...


Gente perfeita eu sei que não tem... mas assim como treinamos habilidades e mais uma porção de outras coisas, acho que todo e qualquer defeito (e também as qualidades) podem ser "domados" para que nos tornemos pessoas menos sofridas, para que afastemos menos pessoas de nossas vidas, para que firamos menos aos outros (e para que nos firamos menos também). 

É tanto!!! Só queria saber o que vou fazer com todas essas constatações...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Música de Chuva


Tava esperando um bilhete
Uma carta
Um pedaço de esperança
A pele rasgada na ponta da lança

Eu não sei
Não sei o que esperava
olhava lá pra fora
A vida tão sem graça

Foi olhando pros meus pés
Que então eu descobri
Que o mundo inteiro é muito pouco
Pra quem só quer sumir

Eu não sei
Não sei o que esperava
olhava lá pra fora

A vida que não pára

Não pára pra eu pensar

Não pára pra eu querer

Não pára pra eu sentir

E nesse momento o que eu quero
é só me iludir

ouça
o barulho lá fora
é de trovão
sinta
o cheiro de chuva
acalma o coração

Eu não sei
Não sei o que esperava
olhava lá pra fora
A vida que deságua

inunda
evapora
devolve vida
vida leva embora
torna nuvem
outra vez
só pra chover talvez

Eu não sei
Não sei o que esperava
olhava lá pra fora
A vida tão sem graça

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Música de Chuva


Tava esperando um bilhete
Uma carta
Um pedaço de esperança
A pele rasgada na ponta da lança


Eu não sei
Não sei o que esperava 
olhava lá pra fora
A vida tão sem graça


Foi olhando pros meus pés
Que então eu descobri
Que o mundo inteiro é muito pouco
Pra quem só quer sumir


Eu não sei
Não sei o que esperava 
olhava lá pra fora


A vida que não pára


Não pára pra eu pensar


Não pára pra eu querer


Não pára pra eu sentir


E nesse momento o que eu quero
é só me iludir


ouça 
o barulho lá fora
é de trovão
sinta 
o cheiro de chuva
acalma o coração


Eu não sei
Não sei o que esperava 
olhava lá pra fora
A vida que deságua


inunda
evapora
devolve vida
vida leva embora
torna nuvem
outra vez
só pra chover talvez


Eu não sei
Não sei o que esperava 
olhava lá pra fora
A vida tão sem graça
Que não pára

domingo, 1 de janeiro de 2012

Sofre Sozinho


Você não sofre sozinho
Ele a ouviu dizer antes de ir embora
Ficou sentado encolhido no vazio do escuro
A alma congelada esquecida noutro mundo


Tanto alarde/ tanta confusão
Por um punhado de verdades não ditas
Mentiras invertidas
Guardadas no porão


Fatos passados não contam
Isso é apenas uma suposição
Que verdades me diria
Só pra me ver sangrar sem solução?


E ele dizia:
Não sei
Não sei 
Não sei
Não sei


Você não sofre sozinho
Ele a ouviu dizer antes de bater a porta
ficou largado em desabrigo no silencio
de um mudo
a alma congelada enrigecida como escudo


Tanto alarde/ tanta confusão
por verdades não ouvidas
mentiras invertidas
ditas sem emoção


Fatos passados não contam
Isso é apenas uma suposição
Que verdades me diria
Só pra me ver sangrar sem solução?


E ele dizia:
Não sei
Não sei 
Não sei
Não sei





sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Saudades?

No fim de mais um ano, com um monte de ideias na cabeça, um monte de sonhos e o desejo mais do que sincero de ficar só com o que me interessa. Não dá pra mentir. 2011 foi barra. Foi bom também, mas foi acima de tudo barra, pesadíssima às vezes. Mas passou. Não me deixou impune, mas passou, como tinha que passar.
Agora é esperar pelo que há de vir e tratando de seguir caminhando, afinal, "camarão que dorme a onda leva".
Vai ver é isso: o jeito é agradecer por tudo, pelas dádivas e pelos espinhos, afinal sob algumas das cicatrizes adquiridas, acho que nasceu uma nova pele, mais forte talvez, mas sobretudo nova.

E que venha 2012.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Deus É Preta.

Ela sabe o que eu sinto, certamente já passou por algo semelhante. Sua força para lutar e me ajudar a lutar é o que mais preciso nesse momento. Seu colo de mãe, seu carinho de mãe, cafuné nos cabelos pra deixar minhas lágrimas saírem, fluírem livremente até que eu me esvazie. Até que eu fique completa. 
Ela sabe como estou, sabe como guiar meus passos, como acalmar minhas angústias, temores e ódios, como aplacar minha sede de vingança e como fazer com que a justiça se manifeste.
Ela Sabe e ela É.
Porque Deus é Preta.

Acho que depois de ter tomado conhecimento disso, nunca mais serei a mesma. Não lembro de uma afirmação que tenha causado tanto impacto em mim quanto esta.
E não me canso de repetir e refletir:

Deus é Preta.
Deus é Preta.
Deus é Preta.
DEUS É PRETA!

domingo, 27 de novembro de 2011

"Tripaliu"

A palavra "trabalho" vem do baixo latim, tripaliu, um instrumento de tortura. Essa explicação etimológica é bastante significativa. 

Poucas vezes um trabalho de faculdade me incomodou tanto. Aliás, não me recordo de ter me sentido tão incomodada com nenhum outro trabalho que eu já tenha feito. Aparentemente simples, uma questão para ser explorada em 45 linhas (15 com argumentos favoráveis, 15 com argumentos contrários e 15 com uma conclusão) de tema livre dentro das possibilidades apresentadas pelo professor. Escolhi uma no entanto que tem me dado um nó: cotas para ingresso no ensino superior.
Não pretendo aqui expor as tais 45 linhas a serem escritas, até mesmo porque até o presente momento não consegui formulá-las. Aqui vou jogar aquilo que não posso por dentro daquele limitado espaço, um pouco da angústia, do asco que estou sentindo ao longo da minha pesquisa. A dor de ler discursos hipócritas que saem por aí bradando aos quatro ventos a inexistência do preconceito racial no Brasil (como os vários artigos disponíveis no blog "Contra a Racialização do Brasil", ao qual cheguei pesquisando sobre textos e artigos de Roberta Kaufman) e o quanto medidas de reparação e autoafirmação raciais são potenciais promotoras de racismo no Brasil, a exaltação da "democracia racial" ignorando-se que esta seja declaradamente frutos de sucessivos estupros (e para quem acha que estou dramatizando, corra para os braços de Gilberto Freyre, vá ler Casa-Grande & Senzala e tente ignorar aquela ladainha toda sobre combinação perfeita entre o "sadismo do português e o masoquismo da índia e da negra" entre outras coisas. Tá, eu sei que o livro é uma obra seminal dos anos 30, que muita coisa foi produzida depois disso, mas poxa! A idéia continua aí sendo requentada e servida como solução agradabilíssima!).
Minha mente borbulha entre desconfortos que nem consigo explicar. Para esse pessoal parece tão fácil, tão simples! 

"Ah, mas o problema no Brasil é social! Se a gente ajuda o pobre, automaticamente vai ajudar o negro, ué! Afinal, todo mundo sabe que 73% da população pobre no Brasil é negra. De quebra se ajuda também o branco pobre, é assim muito mais democrático e não ativa ódios desnecessários, segregacionismos  perigosos, divisão do Brasil numa sociedade bicolor..." 


"E olha, o que tem que ser feito é garantir uma educação pública de base digna pra todo mundo! Cota não é solução, educação de qualidade sim! Assim todo mundo vai ter oportunidade igual!"

Pois é... pois é... Tão bonito falar! Engraçado que, só pra pegarmos um exemplo que se relaciona justamente a essa questão de "educação pública de qualidade", o mesmo PSDB defendido voluntariamente pela "dra". Roberta Kauffman, que faz questão de entre outras vozes, defender que é perigoso transplantar no Brasil o modelo aplicado nos EUA no que diz respeito a políticas de cotas baseadas em critérios raciais porque EUA são EUA e Brasil é Brasil (uma coisa é uma coisa e outra coisa é oooooooooooutra coisa...) parece não ver nada de errado com a política de bonificação de professores da rede pública (adivinhem de onde eles tiraram, ou melhor, exportaram essa idéia?!) que mostrou ser um fiasco em Nova York a ponto de ser repensada enquanto por aqui chegou com o status de "Salvação da Lavoura". Hipocrisia pura! É fácil ficar falando por aí que a Educação Pública tem que melhorar. Isso tem mesmo! Mas do jeito que as coisas vão, se isso acontecer vai demorar horrores! E dessa forma o que temos? Não temos cotas, nem uma escola pública de qualidade, não temos nada. E continuamos sem nada mesmo, mas isso não faz mal! Afinal, esses afrodescedentes e indígenas-descendentes já estão se virando a mais ou menos uns 500 anos sem isso, né mesmo? Se se querem saber, tanto não fez falta a eles que eles continuam aí, sobrevivendo em pleno século XXI, afinal são teimosos mesmo... São brasileiros e não desistem nunca! Por que cargas d'água vamos inventar de mexer logo agora no que está quieto??
Efervescência venenosa em minha mente. Estou enjoada de ler vários argumentos racistas usados para provar que racismo não existe. Gente dizendo que a "negrada" já tem vantagem demais, que está em evidência e que esta é a tendência, que é uma desculpa pra disfarçar incompetência...
Tá certo... racismo não existe... 
(mas que a gente incomoda um bocado quando chega lá na sala de estar da Casa-Grande, usando nossos melhores trajes ao invés de farrapos surrados, sem nenhuma bandeja nos braços ou fardo pesado nas costas, ah, isso incomoda!)

domingo, 13 de novembro de 2011

Mais alguém dando pitaco sobre a USP

Faz tempo eu queria escrever, mas tava reunindo materiais, reunindo coragem pra botar no papel as idéias eminhocadas na minha cabeça.  Os acontecimentos e polêmicas recentes envolvendo a Universidade de São Paulo tem me feito pensar. Já vi e ouvi tanta coisa a respeito! Gente que é contra e simplesmente acha que é um "bando de playboy folgado lutando pelo seu direito de fumar seu baseadinho em paz". Gente fazendo paralelos entre os filmes "Tropa de Elite" e os acontecimentos na USP, desejando vividamente que o Capitão Nascimento aparecesse por lá e esfregasse na cara de cada estudante um corpo ensanguentado ("Quem financia essa merda toda é você!"). Ou ainda usando o mesmo filme pra dizer que os estudantes estão certos e que é a polícia é que tem que acabar. Gente que acredita que é a revolução o que está em curso ("todo poder aos estudantes!"), que é um resgate de lutas e mobilizações históricas do movimento estudantil. Gente bradando pelos quatro ventos que a USP tem que ser privatizada, aliás que tem que acabar com essa "palhaçada" de universidade gratuita. Gente, gente e mais gente, cada um com sua "opinião".  
Bem, o que tenho a apresentar aqui é a minha. Não tenho a pretensão de dizer que "exponho uma visão de dentro" por ser estudante lá - e estudante da FFLCH, diga-se de passagem... justamente do "olho do furacão"... - apenas de compartilhar algumas "pensações" que eu já tinha exposto a alguns amigos e chegados. Posso estar errada? Ora, mas é claro que posso! E essa, afinal de contas, é a graça de se por a cara a tapa: a possibilidade de se levantar um debate.

Das coisas que vejo e que ouço, pelo debate da forma como está colocado, acabei por me convencer que o que acontece ali atualmente  é o debate entre dois posicionamentos elitistas. Já explico: em que pese a violência desnecessária da PM na última terça-feira logo cedo para retirar os estudantes que ocupavam a Reitoria (e que acabou "sitiando" o CRUSP também... pra variar, a repressão sempre batendo na porta daqueles que possuem menos recursos... por que será?), os debates tal qual estão postos gravitam em torno de questões um tanto quanto pequenas frente a outros pontos que não são constantemente mencionados.

A presença ou não da PM no Campus é uma discussão que me parece restrita. Aí se escondem duas falácias:




1) Pensar que a presença da PM no Campus garante a segurança: 



Muita gente por aí fica repetindo que "num país com índices tão alarmantes de criminalidade em que a população clama por mais segurança, os estudantes da USP caem no absurdo de expulsar a PM de dentro do Campus, PM que eles mesmos pediram que estivesse lá dentro pra defendê-los da onda de crimes que assola a Universidade. Pois é... acontece que "estudantes" é uma generalização muito infeliz. Não há consenso sobre a presença ou não da PM no Campus e esta não foi a solicitação dos "estudantes". Há alunos favoráveis a presença da PM. Há os que são contra. E dentro desses grupos há as diferenças de justificativas para tais posicionamentos. Diga-se de passagem que várias generalizações empobrecedoras tem "grudado" nesse caso, aumentando a polêmica, mas sem acrescentar nada de positivo no sentido de se realizar um debate esclarecedor. 
Acontece que colocar na conta da PM a responsabilidade pela garantia ou não de segurança pública é uma simplificação brutal, tanto quanto colocar na conta dos professores a responsabilidade pelo sucesso ou pelo fracasso da Educação brasileira. É também uma forma de desviar a atenção de focos mais interessantes. Ora, acredito que para o sr. Reitor persona non grata João Grandino Rodas seja muito fácil resolver a questão dessa forma: "Os estudantes querem mais segurança? Beleza! A gente traz a PM aqui pra dentro e ta tudo resolvido!" A melhoria das instalações do Campus, com mais iluminação, melhor cuidado e "combate" ao mato que toma conta de muitas partes da Cidade Universitária, melhor conservação e reforma de alguns prédios, a possibilidade de se negociar um menor intervalo de espera de ônibus nos pontos - porque enquanto eu fico sozinha esperando por um ônibus num ponto escuro, deserto, e num lugar distante do Campus eu sou um alvo fácil, não é mesmo? - coisas que são de responsabilidade da própria administração da Universidade, não aparecem. A reitoria se exime de suas responsabilidades, joga todas elas para a PM e pronto! Tudo se resolve num passe de mágica! Pior: a opinião pública manipulada pela mídia compra sem questionar a idéia de que é assim mesmo e que o Reitor, coitadinho, quer fazer de tudo pra ajudar os estudantes, mas esses "filhinhos de papai rebelados" não deixam... É a mesma lógica perversa do governo tucano do Estado de São Paulo utilizada por exemplo na política de bonificação  (ou de punição) dos professores da rede: "professor que trabalha mais, ganha mais e faz os alunos aprenderem mais", como diziam as propagandas de alguns tempos atrás. O Estado faz tudo o que pode, faz a sua parte... mas se a educação não melhora, o problema é dos professores "rebelados, folgados que trocam de carro todos os anos e que reclamam de barriga cheia porque só trabalham meio período e ainda tem férias duas vezes por ano". 




2) Pensar que a  PM no Campus é o problema:



Não deixo de achar interessante que em muitos discursos a "PM repressora" seja muito condenada por suas atuações dentro da USP. Mas aí é que está a questão: dentro da USP! Do lado de fora, não? Eu fico pensando às vezes que seria interessante ver como se organizaria parte dos estudantes mobilizados cuja única reivindicação é "PM fora do Campus!" se o reitor atendesse a esse pedido: "Ok! A PM está fora agora. Está bom para vocês?" Como eu já disse, não sou a favor das ações repressoras que tem sido praticadas. o Diabo é pensar que só na USP é que não pode. Quando o apartamento do meu vizinho foi invadido  e revistado por policiais militares enquanto ele trabalhava (sem mandato de busca, sem ninguém em casa, uma ação arbitrária e ilegal) pois "supostamente haveria um traficante escondido ali", não vi comoção nenhuma. Ficamos nós aqui com nossa indignação e sem ter a quem reclamar, afinal , o que íamos fazer? Chamar a PM? Quer dizer que no meu bairro e em tudo quanto é periferia que tem por esse Brasilzão afora a polícia pode agir de modo costumeiro, mas na USP não pode só porque é a USP? Acho que seria uma reivindicação muito mais consistente a mobilização da opinião pública em prol de uma luta pela mudança de mentalidade das polícias de modo em geral, mas é uma luta a longuíssimo prazo, uma coisa de se mudar o sistema - o mesmo sistema que gera policiais, professores, médicos e outros funcionários públicos corruptos, o mesmo sistema que destrói aqueles que decidem a duras penas não se corromperem. É fácil a gente dizer que a PM tem que acabar e etc. Mas, para além das generalizações, é preciso ver os seres humanos envolvidos, as famílias que podem ficar desamparadas de uma hora para a outra quando um pai ou uma mãe policiais morrem em serviço e que muitos preferem não enxergar. 

Pode parecer que eu esteja divagando... bem, talvez eu esteja... mas o que quero dizer, em resumo, é que a presença da PM tal qual como ela é hoje é um problema. Seja na USP ou em qualquer outro lugar. Mas pregar a "extinção" da PM é uma bandeira de luta complicadíssima, ainda que tentar lutar pela mudança de mentalidade pareça uma Utopia absurda. 


Já que é assim, o que debater então? E por que são dois projetos elitistas? 
Bem, que há muita coisa de podre para dentro dos muros da Cidade Universitária, isso há. Numa das universidades mais ricas do país, é inadmissível que haja prédios, como o prédio onde estudo, História/ Geografia, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, cuja reforma se iniciou há tanto tempo que ninguém entendo como é que não ficou pronto até hoje... um prédio feio, abandonado, sucateado, onde um estudante não pode contar sequer com um ambiente decente pra realizar suas (muitas) leituras exigidas pelo curso. Ora essa! Uma escola que não possui espaço para que se estude! Incoerente, não? Convido a todos que façam uma visita a FFLCH - não só ao prédio da Hist/ Geo, mas às outras dependências também, depois tentem refletir o porque de sempre os estudantes da FFLCH estarem "metidos no meio da bagunça" pra botar a boca no mundo... Visite também outras dependências da USP que não na FFLCH. Mais eu não digo. Vá até lá, é seu direito e é completamente possível já que a USP é pública... vá ver com seus próprios olhos!
Mas como eu dizia, a desigualdade existente dentro da USP é gritante... há duas ou mais USPs dentro da USP. E, com o perdão da palavra, a ''minha USP" não é a mesma que a USP do pessoal da FEA, por exemplo... (nada pessoal, viu gente... !). E desigualdade assim com o tanto de dinheiro que entra lá, bem, se não for má administração é corrupção mesmo, porque não sobram muitas alternativas. Isso é motivo pra se indignar sim. O problema é não se falar disso e ficar restringindo a discussão toda ao consumo de maconha no Campus. Há muita desmando, há muitos problemas dentro da USP. Poxa vida, não temos sequer o direito de eleger nosso próprio reitor, sempre um "presente de grego" do governador do Estado! E ainda me aparece o "bonito" na TV para dizer que "os estudantes da USP deveriam ter aulas de democracia..." Pois é... a gente bem que tenta, sr. Governador, mas pelas atuais circunstâncias fica difícil, não acha?
Mas quando ouço a tônica das mobilizações dada por "Fora PM do Campus" o que consigo apreender disso é também uma reivindicação elitista, porque raramente vi tal bandeira acompanhada de outra como "Dentro Todo Mundo do Campus!" (me perdoem o português ruim... :P). Afinal de contas, numa Universidade do tamanho e magnitude da USP, os projetos de extensão e o relacionamento com a comunidade do entorno são pra lá  de capengas. Não que eu ache que isso seja culpa dos estudantes, afinal as políticas de cultura e extensão não são pensadas nem geridas por eles. Só o que digo é que não me lembro de ter visto lutas aprofundadas nesse sentido. A impressão que fica é que não é só a PM que não se quer no Campus, mas todo mundo. E isso se reflete na opinião pública sobre a USP, uma "ilha murada no meio de São Paulo habitada por um bando de filhinhos de papai".  A USP é um típico exemplo de espaço público não apropriado... tá lá, mas ninguém a vê como sendo sua, ela parece repelir mais do que atrair. Igualzinho aquela escola pública detonadaça, sabe? É público, é de todos e todo mundo sabe disso, mas não consegue sentir... então estraga mesmo, depreda o prédio pois não consegue se relacionar com aquele espaço, não há relação possível com ele. Acho que a USP tinha que ser ocupada! Inteirinha, não a reitoria, o Campus todo. Já pensou que lindo? A população ocupando a USP! Inclusive, acho que com mais gente circulando por lá, por todos os espaços de lá, diminuiria a insegurança, porque a gente tem a tendência de cuidar bem do que é nosso, é ou não é? 
E é assim que a PM não pode ficar lá porque reprime... mas e o Metrô? Por que não pode ficar lá dentro? Por que a estação é longe do Campus? Não só a de metrô, a de trem também? Por que da estação Cidade Universitária para a Cidade Universitária de fato existe um acesso que mais espanta do que convida a entrar? Por que não tem mais o ônibus pra Heliópolis (que tinha quando eu ingressei, em 2005...)? E por que, do que eu me lembre, essas questões não estão nas pautas dos debates dos estudantes que gostam tanto de bradar palavras de ordem e frases de efeito como "liberdade de expressão", "integração", "democracia"... democracia, liberdade e integração de quem e para quem? 
A USP foi construída para ser o celeiro mental das elites brasileiras (e que ninguém se iluda, esse sempre foi o papel das Universidades no Brasil, sobretudo as Públicas... nossa educação sempre foi elitista por princípio) e vem desempenhando coerentemente esse papel nesses mais de 70 anos. Mas ainda que seja assim, nunca é tarde para ao menos se ter a utopia de mudança. Ela está lá. É excludente, é elitista, é tudo isso. Mas está lá. E é possível que não apenas a "playboyzada" ocupe esse espaço, mas isso requer luta, mobilização, reflexão para além do que a mídia cospe em nossas caras diariamente. Para além do embate dos projetos elitistas, que tal a gente tentar pensar maior? Para além da USP ilha!

Algumas coisas ficaram mais estruturadas na minha cabeça com a leitura daqui

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Give Me Your Love



Eu poderia fazer uma lista de músicas com esse nome... tem várias! Mas para mim, a única que me importa agora é esta... 

Faz tempo eu tenho a impressão de que as são músicas que me sussurram aos ouvidos as palavras que eu escrevo. Ela (cada uma delas!) se achega, mansamente, envolve meu corpo em carícias tão sutis que não tenho outra escolha a não ser a entrega, a completa rendição. Então ela me afaga os cabelos, toca-me a nuca e, colando seu corpo ao meu diz bem baixinho em meu ouvido... bem baixinho... baixinho a ponto de me acariciar por dentro e fazer com que suas palavras se confundam com um beijo em meu pescoço, descendo até meu ombro. É a mão dela ou a minha? É a dela... deslizando até minha própria mão que suspira em cada um dos caracteres lançados sobre o papel. Ela se afasta deixando em meu corpo sua marca como um arrepio ritmado. Quando olho estupefata para o papel estranho os sinais ali grafados: são palavras dela ou minhas? 
Dela. Sempre dela. 
E que ficam, sempre, sempre, sempre, como beijos demorados em minha boca.
Esta música é mais uma dessas, me contando palavras por vezes indecifráveis, desejos embaraçados e carinhos compassados. Dançam as letras sobre o papel ou espalhadas em voluptuosos caracteres virtuais. Eu, porém permaneço gravada para sempre como páginas de livros que imploram para serem arrancadas.

"...give me your love..."

terça-feira, 8 de novembro de 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

Carinho de Pano

Desfilava nua pelos cômodos de sua pequena casa, enchendo de perfume cada um dos ambientes que para ela eram tão familiares. Dirigindo-se novamente para o teto, um sorriso gratuito brotava em sua face, trazendo a tona seus pensamentos:
 – Você é tão cheirosa! – lhe haviam dito todos eles. Eram sempre as mesmas palavras e estas a divertiam em seus devaneios quando, sozinha em seu pequeno mundo, recordava-se de momentos em que havia partilhado sua solidão. Ela sabia que eles podiam sentir seu cheiro sempre encantador e o toque macio e quente de sua pele, mas que apesar de tudo isso eles não estavam ali com ela. Cada um deles, egoisticamente, manteve-se num mundo apartado, deleitando-se enquanto se mantinham insensivelmente apartados, mesmo que abraçassem o corpo perfumado de mulher estranha.
Estendida sobre a cama, com a cabeça pendente e os braços abertos ela olhava para o teto, perdida em lembranças, tão sozinha quanto estaria se ele estivesse ali, no mesmo ambiente. Seus pensamentos a cansariam se ela estivesse sóbria, mas as músicas que ouvia se ocupavam de dopá-la, transportando-a para uma realidade mais amena e completamente onírica. Seus olhos abertos iam muito além do teto sobre a cama. Lentamente suas mãos se puseram a acariciar seu próprio corpo delicadamente, como mãos de quem procura um pêssego perfeito numa barraca de feira. Repousou as mãos sobre as coxas e fechou os olhos. Nem se deu conta do momento em que começou a afundar no colchão.
Tudo o que ela pode sentir foi a maciez das colchas e lençóis que envolviam seu corpo, carinho de pano, toque bom de sentir sobre a pele. A roupa de cama a abraçava vagarosamente, de uma maneira que nenhum deles tinha sido capaz de fazer. Sentindo-se segura ela se abandonou e não esboçou sequer reação de movimento. As mãos sobre as coxas, sobre as coxas permaneceram, imóveis, apenas sentindo seu calor. Os lençóis lhe envolveram completamente os pés e as pernas. A colcha deslizava por cima de seu corpo tomando conta do ventre e dos seios, chegando até o pescoço. Lentamente envolveu-lhe a cabeça, afagando os cabelos dela – ah, como ela gostava que lhe afagassem os cabelos! – até cobrir os olhos que não serviam mais para enxergar tão acostumados que estavam com a delícia daquele descanso. Quando ela estava completamente envolvida começou a ser absorvida pelo colchão. Seu corpo tornava-se um só com a espuma espessa, ela toda era enfim unidade. Não poderia estar mais feliz!
Do lado de fora a lâmpada muda no teto do quarto contemplava a cama vazia e arrumada para sempre como se fosse figura de catálogo publicitário. Ficara apenas o perfume, mas este não era suficiente para formar sequer uma ruga sobre os lençóis esticados. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Nota {20}

Tem coisas que a gente sabe - ou pelo menos desconfia - mas que doem de uma forma estranha quando são ditas desbragadamente por outras pessoas.

No fim das contas eu passei o fim de tarde e a noite me sentindo "Menina da Calçada".

Os rótulos de novo, sempre eles... 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Gregória


(é apenas o primeiro ensaio)
Aconteceu. Simples, intenso e inexplicavelmente irremediável. A única mulher presente naquele cortejo funeral estava morta. Uma legião de dois mil homens vindos de todas as partes do mundo seguiam tristes para o destino final da única mulher que foram capazes de amar descontroladamente. A manhã estava radiante, como se o universo saudasse a nova alma que agora se abrigaria dentre as estrelas. No entanto, uma brisa fria insistia em permanecer indo e vindo, obrigando todos a sentirem um frio desconfortável e inquietante. Todos queriam dizer adeus à Gregória.
O mundo real sempre escreveria sua própria versão do inexplicável.
Cada pedaço de pele latejava, a febre fervilhava em cada nervo. Um terrível sentimento de perda de si mesma em seu próprio domínio. Era fato. Era real e palpável. Como não se perder nas perfeições das curvas? Na pele alva e profana?  “ E se eu te dissesse que nada disso é real?” a voz cálida e sussurrada que incitava desejo e luxúria dizia o contrário. O arrepio espicaçante e gélido. “você é tão linda” eles diziam. Mas nenhum fora capaz de lhe saciar a fome.  Nenhum dos mais apaixonados amantes foi capaz de satisfazer-lhe a ponto de desfalecer. Mas ali, deitada e deliciada em seus próprios braços Gregória respirava e inspirava todo o prazer de si mesma.” Você é tão maravilhosa eles gemiam”. Nem mesmo nas noites mais terríveis onde pensava perder a sanidade e se entregava a vários deles, nunca sentiu prazer  tão intenso. Jamais. A saliva morna transpassava entre suas línguas e lábios. A perfeita dança de iguais. O mergulho em águas profundas. E que nunca mais retornasse à  superfície. Que nunca mais a solidão a atravessasse novamente. Agora era inteiramente de si mesma. Cativa. E qual não foi o frenesi despertado pelo roçar quase animal dos corpos idênticos? Não havia mais tempo para se perder em indagações racionais. Gregória jamais deixaria de pertencer a si mesma novamente.  ‘Você é tão quente” eles sussurravam.
Lembranças explodiam cada vez mais rápido, e cada vez mais forte. Queria guardar aquele momento para sempre na memória, mas ela lhe traía e seus olhos lhe pregavam uma peça.
Procurava se lembrar de como tudo aconteceu. “ E se eu te dissesse que nada disso é real?” Um novo suspiro e uma nova onda de prazer. Uma nova e deliciosa convulsão a fazia sacudir todo o corpo. Quando foi que ela apareceu? Há um ou dois dias talvez. Mas a sensação era de ter estado ali a vida inteira.
Num último crepúsculo de lucidez, Gregória levantou da banheira onde se banhava com óleos e sais. E vestida com o roupão de tecido esvoaçante e transparente atravessou o quarto em busca do adorado espelho de moldura escarlate. E lá permaneceu horas a se admirar. Olhava para seu reflexo e imaginava extasiada quantas vezes seu corpo havia proporcionado prazeres inenarráveis  ao submeter-se aos caprichos luxuriosos de seus amantes. Que feitiço tinha ela para aumentar todos os dias as hordas de machos sedentos de amor que amontoavam-se nos portões de sua elegante e desolada casa? Que necessidade voraz era aquela que a obrigava a se entregar a tantos homens? Homens que ela sabia que jamais lhe dariam o que ela desejava.  Gregória desejava ardente por si mesma.
E foi num desses fins de tarde, onde devaneios tomam conta da alma e delírios deixam marcas de fogo na mente, que um calafrio de espanto percorreu o corpo de Gregória.  Olhava estupefata seu reflexo que começava a sair do espelho e tomar lugar no quarto tanto quanto ela própria. Como numa ordem demoníaca, uma piada de mau gosto, lá estava o reflexo tão nu e tão perfeito quando a própria dona. Ambas trocaram olhares atônitos. Num primeiro momento de curiosidade aproximaram-se cautelosamente e devagar. O espanto cedeu lugar ao desejo. A respiração forte e entrecortada prenunciou  um longo ósculo. Não havia pontos a descobrir uma na outra. Ambas sabiam exatamente o que desejavam. Modelo e pintura criador e criatura. Amaram-se se reservas, sem pudores e sem limites. Consumiram-se dias a fio. Não havia mais o resto do mundo. O universo se resumia a latência desenfreada de um par de Gregórias sedentas e letais.
E quando muitos dias se passaram e muitas noites se desvaneceram no romper da aurora, o reflexo, exaurido de suas forças,  rastejou de volta para o espelho. Gregória, ao perceber o intento de sua cópia apressou-se em destruir o caminho de volta. No auge de sua insanidade ela jamais permitiria que seu reflexo voltasse para o espelho. Aquela superfície frágil e gélida, não mais a separaria dela mesma. Sua cópia permaneceu caída no chão. O corpo nu entre pedaços do que outrora fora um espelho. Gregória aconchegou a cabeça do reflexo entre os seios e chorou ao perceber o último suspiro. Chorou como nunca havia chorado. Chorou até entender que sua dor jamais seria suplantada.
Uma idéia visceral tomou conta da mente já tão perturbada. Não se sabe quanto tempo  levou para ser realizada. Mas foi. Apanhando um caco de vidro, cortou suavemente a pele do cadáver e se alimentou dele por dias seguidos. Cada pequeno pedaço de víscera que escorregava por sua garganta trazia de volta doces e dementes lembranças de dias em que conheceu o prazer de si mesma. Quando finalmente nada mais restou de si mesma, uma torpe saudade a enfraqueceu e levou embora a última chama de vida que havia na ruiva mulher.
Na noite em que foi encontrada morta pelos empregados, uma tristeza sem surpresas acalentou seus  corações.  Todos sabiam que os hábitos da patroa ainda a levaria embora do mundo dos vivos. Gregória jazia nua, entre cacos de vidro e pequenos pedaços de papel picado usados com ópio espalhados pelo quarto.  O mundo real sempre escreveria sua própria versão do inexplicável.